Um Conto
de Natal, pelo aluno João Alves (11ºTRA- 13/16)
Era uma daquelas
noites frias de inverno, onde o vento passeava por entre os pinheiros grandes e
os seus franzinos filhos, as estrelas cantavam doces canções de embalar para os
animais da floresta, enquanto os pirilampos, juntamente com as pequeninas
fadas, que facilmente se misturam entre eles, carregavam a lua, anunciando que
era hora de dormir.
O sol ergueu-se,
num instante, transformando aquele breu num lindo tecido azul, de cetim, com
bordados brancos.
Era a manhã.
Acordaram os rios, as árvores, os duendes, as pedras, os animais, todos
acordaram e todos estranharam um acontecimento raro:
- O Natal?! -
Exclamou e, ao mesmo tempo, interrogou-se a lebre Lúcia.
- Não sabemos! Acordámos
e não havia Natal! - Respondeu o Sr. e a Sr.ª Cacheiro.
O Natal não tinha chegado naquela madrugada. Todos os seres da floresta estavam preocupados com tal acontecimento e como não sabiam o que se tinha passado, porque estavam a dormir, convocaram uma reunião geral, junto à toca do Mestre Mocho, o ser mais sábio daquele local.
À hora marcada,
todos estavam presentes: o grilo Gui, o caracol Cristóvão, a lebre Lúcia, o
casal Cacheiro, o veado Vítor, a Maria minhoca... e até a raposa Rafa
compareceu na reunião tão importante. Todos compareceram, todos, menos a cegonha
Celeste, mas tal não foi preocupante tendo em conta a sua idade e a sua bondade
para com os habitantes da floresta.
- Ora, muito
bem! Estamos aqui porque o Natal desapareceu. - Anunciou o Mestre Mocho.
- Foi roubado!
Roubaram-nos o Natal! - Gritaram os habitantes.
Naquela azáfama,
onde ninguém se entendia, por entre gritos e grossarias, eis que alguém atirou
ao ar:
- Foi a raposa
Rafa! Eu vi-a de noite quando todos estavam a dormir.
- Eu não fui! Se
me viste, eu que fui buscar lenha para a lareira, para me aquecer, que estavas
também tu a fazer durante a noite? - Perguntou a raposa Rafa, ao ar, tendo em
conta que não se apercebeu de quem falou.
- Eu sei que
tenho fama de manhosa, mas juro que não fui.
Aquela floresta,
que sempre foi tão calma, no dia de Natal estava um caos, naquele dia que
deveria ser de alegria, partilha, amor e compaixão, estava a ser um dia
desesperante, pois o Natal desapareceu, foi roubado, ficou pelo caminho...
ninguém sabia onde ele estava, nem sabiam se ia chegar. A reunião não valeu de
nada e os seres da floresta foram para casa, tristes e desolados, porque não
iriam ter Natal.
A raposa Rafa
estava bastante indignada, enquanto seguia para a sua toca, os seus amigos
acusaram-na de roubar o Natal, uma época que ela tanto adora e preza...
-Roubar o Natal!
Pffff! - Disse, resignada.
A caminho da
toca, passou pela casa da cegonha Celeste, visto que ela não compareceu na
reunião e, ao aproximar-se da árvore onde a cegonha Celeste tinha o seu ninho,
a raposa Rafa reparou em algo estranho... havia neve! De onde vinha aquela neve
toda, só na casa da cegonha Celeste...
- Celeste,
Celeste! - Chamou a raposa Rafa - O que se passou? Porque tens Natal e nós não?
- Eu...eu
não...eu não fiz nada, não fui eu... - Respondeu, tentando esconder inutilmente
a neve que se encontrava ao seu lado.
-Estou a ver a
neve, Celeste, tu roubaste o Natal, e acusaram-me injustamente!
Era
inacreditável toda aquela situação, a raposa Rafa estava perplexa com tal
injustiça. Não poderia acreditar que tinha sido acusada e, ainda mais, de ter
sido a cegonha Celeste a roubar o Natal.
-Porque fizeste
isto? O Natal tem de ser de partilha e não individual, o Natal individual não é
o mesmo, precisamos todos dele, precisamos de sentir o amor de todos e o calor
que o amor nos traz.
A cegonha
Celeste, rosada de tanta vergonha e a medo, lá admitiu tamanha barbaridade que
cometeu:
-Sabes,
Rafa...eu fui muito injusta com vocês todos. Egoísta. Desde muito pequena que
não tenho Natal...os meus pais partiram quando eu era muito pequenina, partiram
para levar os filhos aos homens que tanto ansiavam. Eu fiquei por aqui, não os
iria conseguir acompanhar naquela jornada. Como fiquei aqui na floresta
sozinha, os meus natais foram sempre passados sozinha, a recordar o primeiro
Natal que passei com os meus pais, no nosso ninho, com o branco nos
pinheiros... sabes, aqueles pinheiros altos? - Perguntou a cegonha Celeste -
aqueles pinheiros enormes que tocam o céu... ah, como eram pequeninos na altura!
Lembro-me de quando chegava a Estrela Maior e o frio se transformava em calor
aconchegante e as estrelas, que já muito brilham, ainda mais brilhavam...E eu passei
muitos natais a relembrar e a experienciar a alegria de todos, e eu, neste
ninho, em imensa tristeza...
A raposa Rafa
comoveu-se com a história da cegonha Celeste. Nunca ninguém iria imaginar que
ser tão amigável, tão amistoso, tão carinhoso e tão feliz, poderia ser, ao
mesmo tempo, tão infeliz. A injustiça que a raposa Rafa sentia desapareceu
naquele instante e deu lugar a uma enorme compaixão.
Entretanto, o
Natal não tinha chegado e todos estavam profundamente tristes nas suas tocas,
ninhos, "casas"…
Estava frio,
muito frio, mas não havia neve em lugar nenhum, a não ser no ninho da cegonha
Celeste. As crias choravam, não iriam receber o presente da Estrela Maior, os
pais choravam, porque não iriam ver o sorriso resplandecente dos seus amados
filhos. Um dia triste e uma noite ainda mais triste.
- Celeste! Tive
uma ideia! - Brilhou Rafa, com um sorriso de orelha a orelha. - Ainda tens o
Natal contigo?
- Sim! Guardei a
Estrela Maior, está fechada... Oh Santa Natureza, o que eu fui fazer!...
- Não importa,
Celeste, agora, vamos tratar do assunto! Liberta a Estrela Maior e vamos
devolver o Natal a todos os habitantes da floresta, podes remediar tudo só com
esse gesto, um gesto mínimo, mas tão significativo...
A cegonha
Celeste tratou logo do assunto, contente com tamanho gesto de um amigo da
floresta, o gesto do perdão. Libertou a Estrela Maior e jurou que nunca mais
cometeria tal ato.
Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu,
fiiiiiiiiiiiiiu,...
O vento soprava
cada vez mais alto. Quem estava na floresta a apanhar lenha para a sua lareira,
logo recolheu com medo de uma tempestade.
A raposa Rafa,
depois de ter ido para casa, pediu a um vizinho para espalhar uma notícia e
assim foi:
- O NATAL VAI
CHEGAR! O NATAL JÁ APARECEU! É NATAL! - Palrava bem alto o corvo Carlos.
Todos saíram a
medo do seu aconchego, com cachecóis e luvas, estava tanto frio e vento... todos
saíram e se encontraram junto da toca do Mestre Mocho.
Estavam
incrédulos, a neve estava a chegar a todos como um manto branco sobre aquele
céu, os flocos de neve caíam como uma peça rendada sobre a mesa. Ao longe,
via-se uma luz brilhante, enorme, do tamanho do sol, talvez ainda maior, sobre
o manto, sobre o céu, acima de todos. Era a Estrela Maior. A Santa Natureza em aparição
real, uma espécie de personificação divina, o mais, o maior, o celestial, em
plena terra, embora tão alta.
Todos admiravam
tal acontecimento, mais do que admiraram a falta do mesmo, enquanto os sinos
tocavam naquela valsa celeste em tal celestial som. Era divino o momento!
Os habitantes,
completamente irradiados de luz, perguntavam-se o que teria acontecido para o
Natal ter chegado tão tarde e ninguém sabia a resposta, a não ser a raposa Rafa
e a cegonha Celeste que tardaram a chegar, mas que por fim o fizeram.
- Onde andaram
vocês as duas? - Perguntou o Mestre Mocho, ciente da sua atenção para com os
habitantes.
- Encontramos o
Natal... bem, não foi bem encontrar! - Engasgou-se a raposa Rafa, sabendo da
completa verdade.
- Tem tudo uma
explicação! - Disse a cegonha Celeste ao Mestre Mocho.
Enquanto isso,
ergueu as asas e a luz da Estrela Maior, brilhante, por sinal, mais brilhante
ficou, uma cor gelada, uma luz fria e ao mesmo tempo tão quente. Admirados, os
habitantes não percebiam o que estava a acontecer. Primeiro, o Natal não tinha
vindo, depois apareceu e no mesmo momento em que aparece, a cegonha Celeste
abre as asas e as mesmas se transformam em duas grandes luas, que refletem a
luz da Estrela Maior.
- Celeste? -
Chamou a raposa Rafa, também sem entender o que se estava a passar.
- O que se
passa, Rafa? Sabes de alguma coisa? - Perguntou o Mestre Mocho.
- Eu não sei, eu
tinha falado com ela, e ela disse-me que o Natal a fazia triste, e tinha
guardado a Estrela Maior...
A raposa Rafa
nem teve tempo de terminar o que estava a dizer, pois aquela luz , a luz da
cegonha Celeste, que não toca, cegou todos os que ali se encontravam e subiu bem
alto para que todos a vissem.
- Eu sou o Natal!
- Falou suavemente e em tom doce, aquela luz que outrora fora a Celeste.
- Ahhhhhhhhhhh!
- Seguiram-se os múrmuros espantados de tal multidão.
A cegonha
Celeste, ou melhor, aquela luz, o Natal, retomou:
- Sim, eu sou o
Natal! Rafa, eu não te menti quando te contei a minha história, simplesmente...
não contei toda a verdade. Lembraste quando te contei que tinha ficado aqui
sozinha, sem pais?
- Sim,
lembro-me! - Falou a raposa Rafa.
- Pois bem... quando
fiquei sozinha... na noite de Natal, veio o mesmo vento e o mesmo manto branco
sobre o céu. Veio até mim. Era a Santa Natureza que atendeu ao meu chamamento.
A Santa Natureza
sabia de toda a história da cegonha Celeste, sabia da história de todos os
habitantes da floresta, recompensava e dava lições a bons e maus comportamentos
dos habitantes, era a suprema força.
A cegonha Celeste
contou isso e contou a forma como foi recompensada, contou que a Santa Natureza
lhe tinha dado o poder supremo da alegria, em que, pela altura do Natal, transformava
aquela floresta num lugar mágico, branco e feliz. Tinha sido concedido o Natal
à cegonha Celeste e ela era o próprio Natal. Todos os anos, a cegonha Celeste retirava
a Estrela Maior do seu ninho e libertava-a aos céus, para que o Natal chegasse
a todos os seus amigos; por outro lado, não poderia acompanhar a alegria de
perto, pois tinha de controlar toda aquela cena natalícia.
- Então és tu o
Natal... se és tu o Natal é por isso que nunca sais do teu ninho, justo no teu
dia? - Perguntou o Mestre Mocho, que até a ele lhe tinha escapado tal
conhecimento.
- Sim, Mestre
Mocho. O meu dia não pode ser passado com vocês, pois tenho de guardar a
Estrela Maior, antes que alguém a roube.
Então, a raposa
Rafa disse:
- Podes passar a
noite de hoje connosco, agora já sabemos de toda a verdade, Celeste!
- Não, não posso,
meu amor! - Respondeu o Natal - Agora é hora de partir, sou mágica, o Natal é
mágico, é esperança, são estrelinhas pequeninas no ar a abraçar a cara de
todos, é música que passa com o vento pelos vossos ouvidos, é aquela música que
todos ouvem, é magia e é mistério.
O mistério tinha
sido desvendado. A cegonha Celeste era o Natal, e agora poderiam estar todos
juntos a celebrar aquele momento, mas... o mistério tinha sido desvendado e por
isso, já não havia mistério.
- Foi a tua
compaixão e o teu amor que me fez contar a verdade, Rafa... - Disse o Natal -
Quando te contei a minha história, perdoaste-me sem sequer refletir. Quando te
disse que tinha roubado o Natal, mostraste-me o amor que bate juntamente com o
teu coração. Foi o teu espírito natalício que me fez mostrar quem sou, foi o
teu calor e ternura que me fez querer mostrar quem sou, foi o conhecimento do
ser que tu és, mesmo tendo sido acusado,
soubeste que fui
eu e não te zangaste, tentaste compreender o que fiz, tu és o verdadeiro
espírito natalício e eu, o Natal, tinha de mostrar quem eu sou!
-Mas, e agora? -
Perguntou a raposa Rafa a medo do que poderia acontecer. - O que vai acontecer
agora?
- Agora terei de
partir quando for manhã, enquanto vocês partilham o que eu vos dou, ou melhor,
o que eu realço em vocês, o vosso espírito, o vosso amor, o vosso carinho, a
vossa compaixão. - Disse o Natal enquanto se erguia ainda mais alto.
E enquanto ele
se erguia, a luz deixava de cegar e estava cada vez mais distante, brilhando
com a mesma intensidade até desaparecer por completo, deixando apenas a Estrela
Maior brilhando sobre aqueles habitantes que se mostravam perplexos durante
aquele acontecimento tão importante. O céu estava azul escuro, um tom que não era
frio, era um tom de calor, uma cor fria que irradiava calor, sobre o céu,
estava uma camada fina de neve suave e branca, que também vestia todos os
pinheiros daquela floresta, e as estrelinhas, bem lá no alto, compunham uma canção
de amor.
- Até um dia,
Celeste! Eu sei que vais voltar! - disse a raposa Rafa, com uma lágrima no
canto do olho direito que escorreu até à sua boca, que sorria, um sorriso doce
e carinhoso.
- É NATAL! -
gritaram os habitantes da floresta.
- É Natal, Bom
Natal, vamos festejar! É tempo de alegria! - Disse o Mestre Mocho.
Os seres que
assistiram a tudo não se juntaram em casa, juntaram-se todos debaixo da toca do
Mestre Mocho e festejaram todos juntos, ali mesmo, festejaram com músicas
contentes e lindas a sua acarinhada amiga Celeste. Os pirilampos já tinham
carregado a lua e desceram para iluminar o local com as suas luzinhas
pequeninas.
Dançaram,
cantaram, cearam, riram, festejaram, amaram... era Natal.
Passaram-se
vários anos desde que a cegonha Celeste partira, mas o Natal chegara todos
esses mesmos anos. Era a mesma alegria no ar, a mesma magia desde aquele Natal
que tinha ficado na memória de todos os seres da floresta.
Um certo Natal,
quando a raposa Rafa seguia para junto dos outros seres para celebrar a ida da
sua amiga e a vinda do Natal, tropeçou nas suas próprias patas e esmurrou um
lado da sua face, que ardia. A raposa Rafa chorava e chorava e ninguém atendia
ao seu choro, que era um choro normal de uma pequena raposa que se tinha ferido
sem se aperceber porquê. A ferida ardia, mas de súbito, deixara de arder e
sarou, num ápice, e a raposa Rafa
percebeu que
algo tinha acontecido e sentiu uma pequena brisa suave e quente sobre o sítio
em que se tinha ferido, sorriu, olhou para o céu, aquele céu cintilante, escuro
e esbatido de névoa, e apercebeu-se de quem era, era o Natal.
Sentiu que era o
Natal, e quando sentiu, os sinos tocaram, as estrelas piscaram, os flocos de
neve caíam como fitas de cetim, e espalhou-se uma voz doce e maternal pelo ar,
que ecoou:
- O Natal também
é gratidão e este foi o meu agradecimento. Bom Natal!
A raposa Rafa
levantou-se do chão e correu o mais rápido possível para junto dos seus amigos
para contar a boa nova:
- Ela veio, ela
visitou-me, a cegonha Celeste esteve aqui e beijou-me a cara, e assim como me
disse a mim, também o diz a vocês. BOM NATAL.

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