16 de dezembro de 2014

Conto de Natal, por João Alves

Um Conto de Natal, pelo aluno João Alves (11ºTRA- 13/16)

Era uma daquelas noites frias de inverno, onde o vento passeava por entre os pinheiros grandes e os seus franzinos filhos, as estrelas cantavam doces canções de embalar para os animais da floresta, enquanto os pirilampos, juntamente com as pequeninas fadas, que facilmente se misturam entre eles, carregavam a lua, anunciando que era hora de dormir.
O sol ergueu-se, num instante, transformando aquele breu num lindo tecido azul, de cetim, com bordados brancos.
Era a manhã. Acordaram os rios, as árvores, os duendes, as pedras, os animais, todos acordaram e todos estranharam um acontecimento raro:
- O Natal?! - Exclamou e, ao mesmo tempo, interrogou-se a lebre Lúcia.
- Não sabemos! Acordámos e não havia Natal! - Respondeu o Sr. e a Sr.ª Cacheiro.

O Natal não tinha chegado naquela madrugada. Todos os seres da floresta estavam preocupados com tal acontecimento e como não sabiam o que se tinha passado, porque estavam a dormir, convocaram uma reunião geral, junto à toca do Mestre Mocho, o ser mais sábio daquele local.
À hora marcada, todos estavam presentes: o grilo Gui, o caracol Cristóvão, a lebre Lúcia, o casal Cacheiro, o veado Vítor, a Maria minhoca... e até a raposa Rafa compareceu na reunião tão importante. Todos compareceram, todos, menos a cegonha Celeste, mas tal não foi preocupante tendo em conta a sua idade e a sua bondade para com os habitantes da floresta.
- Ora, muito bem! Estamos aqui porque o Natal desapareceu. - Anunciou o Mestre Mocho.
- Foi roubado! Roubaram-nos o Natal! - Gritaram os habitantes.
Naquela azáfama, onde ninguém se entendia, por entre gritos e grossarias, eis que alguém atirou ao ar:
- Foi a raposa Rafa! Eu vi-a de noite quando todos estavam a dormir.
- Eu não fui! Se me viste, eu que fui buscar lenha para a lareira, para me aquecer, que estavas também tu a fazer durante a noite? - Perguntou a raposa Rafa, ao ar, tendo em conta que não se apercebeu de quem falou.
- Eu sei que tenho fama de manhosa, mas juro que não fui.
Aquela floresta, que sempre foi tão calma, no dia de Natal estava um caos, naquele dia que deveria ser de alegria, partilha, amor e compaixão, estava a ser um dia desesperante, pois o Natal desapareceu, foi roubado, ficou pelo caminho... ninguém sabia onde ele estava, nem sabiam se ia chegar. A reunião não valeu de nada e os seres da floresta foram para casa, tristes e desolados, porque não iriam ter Natal.
A raposa Rafa estava bastante indignada, enquanto seguia para a sua toca, os seus amigos acusaram-na de roubar o Natal, uma época que ela tanto adora e preza...
-Roubar o Natal! Pffff! - Disse, resignada.
A caminho da toca, passou pela casa da cegonha Celeste, visto que ela não compareceu na reunião e, ao aproximar-se da árvore onde a cegonha Celeste tinha o seu ninho, a raposa Rafa reparou em algo estranho... havia neve! De onde vinha aquela neve toda, só na casa da cegonha Celeste...
- Celeste, Celeste! - Chamou a raposa Rafa - O que se passou? Porque tens Natal e nós não?
- Eu...eu não...eu não fiz nada, não fui eu... - Respondeu, tentando esconder inutilmente a neve que se encontrava ao seu lado.
-Estou a ver a neve, Celeste, tu roubaste o Natal, e acusaram-me injustamente!
Era inacreditável toda aquela situação, a raposa Rafa estava perplexa com tal injustiça. Não poderia acreditar que tinha sido acusada e, ainda mais, de ter sido a cegonha Celeste a roubar o Natal.
-Porque fizeste isto? O Natal tem de ser de partilha e não individual, o Natal individual não é o mesmo, precisamos todos dele, precisamos de sentir o amor de todos e o calor que o amor nos traz.
A cegonha Celeste, rosada de tanta vergonha e a medo, lá admitiu tamanha barbaridade que cometeu:
-Sabes, Rafa...eu fui muito injusta com vocês todos. Egoísta. Desde muito pequena que não tenho Natal...os meus pais partiram quando eu era muito pequenina, partiram para levar os filhos aos homens que tanto ansiavam. Eu fiquei por aqui, não os iria conseguir acompanhar naquela jornada. Como fiquei aqui na floresta sozinha, os meus natais foram sempre passados sozinha, a recordar o primeiro Natal que passei com os meus pais, no nosso ninho, com o branco nos pinheiros... sabes, aqueles pinheiros altos? - Perguntou a cegonha Celeste - aqueles pinheiros enormes que tocam o céu... ah, como eram pequeninos na altura! Lembro-me de quando chegava a Estrela Maior e o frio se transformava em calor aconchegante e as estrelas, que já muito brilham, ainda mais brilhavam...E eu passei muitos natais a relembrar e a experienciar a alegria de todos, e eu, neste ninho, em imensa tristeza...
A raposa Rafa comoveu-se com a história da cegonha Celeste. Nunca ninguém iria imaginar que ser tão amigável, tão amistoso, tão carinhoso e tão feliz, poderia ser, ao mesmo tempo, tão infeliz. A injustiça que a raposa Rafa sentia desapareceu naquele instante e deu lugar a uma enorme compaixão.
Entretanto, o Natal não tinha chegado e todos estavam profundamente tristes nas suas tocas, ninhos, "casas"…
Estava frio, muito frio, mas não havia neve em lugar nenhum, a não ser no ninho da cegonha Celeste. As crias choravam, não iriam receber o presente da Estrela Maior, os pais choravam, porque não iriam ver o sorriso resplandecente dos seus amados filhos. Um dia triste e uma noite ainda mais triste.
- Celeste! Tive uma ideia! - Brilhou Rafa, com um sorriso de orelha a orelha. - Ainda tens o Natal contigo?
- Sim! Guardei a Estrela Maior, está fechada... Oh Santa Natureza, o que eu fui fazer!...
- Não importa, Celeste, agora, vamos tratar do assunto! Liberta a Estrela Maior e vamos devolver o Natal a todos os habitantes da floresta, podes remediar tudo só com esse gesto, um gesto mínimo, mas tão significativo...
A cegonha Celeste tratou logo do assunto, contente com tamanho gesto de um amigo da floresta, o gesto do perdão. Libertou a Estrela Maior e jurou que nunca mais cometeria tal ato.
Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu, fiiiiiiiiiiiiiu,...
O vento soprava cada vez mais alto. Quem estava na floresta a apanhar lenha para a sua lareira, logo recolheu com medo de uma tempestade.
A raposa Rafa, depois de ter ido para casa, pediu a um vizinho para espalhar uma notícia e assim foi:
- O NATAL VAI CHEGAR! O NATAL JÁ APARECEU! É NATAL! - Palrava bem alto o corvo Carlos.
Todos saíram a medo do seu aconchego, com cachecóis e luvas, estava tanto frio e vento... todos saíram e se encontraram junto da toca do Mestre Mocho.
Estavam incrédulos, a neve estava a chegar a todos como um manto branco sobre aquele céu, os flocos de neve caíam como uma peça rendada sobre a mesa. Ao longe, via-se uma luz brilhante, enorme, do tamanho do sol, talvez ainda maior, sobre o manto, sobre o céu, acima de todos. Era a Estrela Maior. A Santa Natureza em aparição real, uma espécie de personificação divina, o mais, o maior, o celestial, em plena terra, embora tão alta.
Todos admiravam tal acontecimento, mais do que admiraram a falta do mesmo, enquanto os sinos tocavam naquela valsa celeste em tal celestial som. Era divino o momento!
Os habitantes, completamente irradiados de luz, perguntavam-se o que teria acontecido para o Natal ter chegado tão tarde e ninguém sabia a resposta, a não ser a raposa Rafa e a cegonha Celeste que tardaram a chegar, mas que por fim o fizeram.
- Onde andaram vocês as duas? - Perguntou o Mestre Mocho, ciente da sua atenção para com os habitantes.
- Encontramos o Natal... bem, não foi bem encontrar! - Engasgou-se a raposa Rafa, sabendo da completa verdade.
- Tem tudo uma explicação! - Disse a cegonha Celeste ao Mestre Mocho.
Enquanto isso, ergueu as asas e a luz da Estrela Maior, brilhante, por sinal, mais brilhante ficou, uma cor gelada, uma luz fria e ao mesmo tempo tão quente. Admirados, os habitantes não percebiam o que estava a acontecer. Primeiro, o Natal não tinha vindo, depois apareceu e no mesmo momento em que aparece, a cegonha Celeste abre as asas e as mesmas se transformam em duas grandes luas, que refletem a luz da Estrela Maior.
- Celeste? - Chamou a raposa Rafa, também sem entender o que se estava a passar.
- O que se passa, Rafa? Sabes de alguma coisa? - Perguntou o Mestre Mocho.
- Eu não sei, eu tinha falado com ela, e ela disse-me que o Natal a fazia triste, e tinha guardado a Estrela Maior...
A raposa Rafa nem teve tempo de terminar o que estava a dizer, pois aquela luz , a luz da cegonha Celeste, que não toca, cegou todos os que ali se encontravam e subiu bem alto para que todos a vissem.
- Eu sou o Natal! - Falou suavemente e em tom doce, aquela luz que outrora fora a Celeste.
- Ahhhhhhhhhhh! - Seguiram-se os múrmuros espantados de tal multidão.
A cegonha Celeste, ou melhor, aquela luz, o Natal, retomou:
- Sim, eu sou o Natal! Rafa, eu não te menti quando te contei a minha história, simplesmente... não contei toda a verdade. Lembraste quando te contei que tinha ficado aqui sozinha, sem pais?
- Sim, lembro-me! - Falou a raposa Rafa.
- Pois bem... quando fiquei sozinha... na noite de Natal, veio o mesmo vento e o mesmo manto branco sobre o céu. Veio até mim. Era a Santa Natureza que atendeu ao meu chamamento.
A Santa Natureza sabia de toda a história da cegonha Celeste, sabia da história de todos os habitantes da floresta, recompensava e dava lições a bons e maus comportamentos dos habitantes, era a suprema força.
A cegonha Celeste contou isso e contou a forma como foi recompensada, contou que a Santa Natureza lhe tinha dado o poder supremo da alegria, em que, pela altura do Natal, transformava aquela floresta num lugar mágico, branco e feliz. Tinha sido concedido o Natal à cegonha Celeste e ela era o próprio Natal. Todos os anos, a cegonha Celeste retirava a Estrela Maior do seu ninho e libertava-a aos céus, para que o Natal chegasse a todos os seus amigos; por outro lado, não poderia acompanhar a alegria de perto, pois tinha de controlar toda aquela cena natalícia.
- Então és tu o Natal... se és tu o Natal é por isso que nunca sais do teu ninho, justo no teu dia? - Perguntou o Mestre Mocho, que até a ele lhe tinha escapado tal conhecimento.
- Sim, Mestre Mocho. O meu dia não pode ser passado com vocês, pois tenho de guardar a Estrela Maior, antes que alguém a roube.
Então, a raposa Rafa disse:
- Podes passar a noite de hoje connosco, agora já sabemos de toda a verdade, Celeste!
- Não, não posso, meu amor! - Respondeu o Natal - Agora é hora de partir, sou mágica, o Natal é mágico, é esperança, são estrelinhas pequeninas no ar a abraçar a cara de todos, é música que passa com o vento pelos vossos ouvidos, é aquela música que todos ouvem, é magia e é mistério.
O mistério tinha sido desvendado. A cegonha Celeste era o Natal, e agora poderiam estar todos juntos a celebrar aquele momento, mas... o mistério tinha sido desvendado e por isso, já não havia mistério.
- Foi a tua compaixão e o teu amor que me fez contar a verdade, Rafa... - Disse o Natal - Quando te contei a minha história, perdoaste-me sem sequer refletir. Quando te disse que tinha roubado o Natal, mostraste-me o amor que bate juntamente com o teu coração. Foi o teu espírito natalício que me fez mostrar quem sou, foi o teu calor e ternura que me fez querer mostrar quem sou, foi o conhecimento do ser que tu és, mesmo tendo sido acusado,
soubeste que fui eu e não te zangaste, tentaste compreender o que fiz, tu és o verdadeiro espírito natalício e eu, o Natal, tinha de mostrar quem eu sou!
-Mas, e agora? - Perguntou a raposa Rafa a medo do que poderia acontecer. - O que vai acontecer agora?
- Agora terei de partir quando for manhã, enquanto vocês partilham o que eu vos dou, ou melhor, o que eu realço em vocês, o vosso espírito, o vosso amor, o vosso carinho, a vossa compaixão. - Disse o Natal enquanto se erguia ainda mais alto.
E enquanto ele se erguia, a luz deixava de cegar e estava cada vez mais distante, brilhando com a mesma intensidade até desaparecer por completo, deixando apenas a Estrela Maior brilhando sobre aqueles habitantes que se mostravam perplexos durante aquele acontecimento tão importante. O céu estava azul escuro, um tom que não era frio, era um tom de calor, uma cor fria que irradiava calor, sobre o céu, estava uma camada fina de neve suave e branca, que também vestia todos os pinheiros daquela floresta, e as estrelinhas, bem lá no alto, compunham uma canção de amor.
- Até um dia, Celeste! Eu sei que vais voltar! - disse a raposa Rafa, com uma lágrima no canto do olho direito que escorreu até à sua boca, que sorria, um sorriso doce e carinhoso.
- É NATAL! - gritaram os habitantes da floresta.
- É Natal, Bom Natal, vamos festejar! É tempo de alegria! - Disse o Mestre Mocho.
Os seres que assistiram a tudo não se juntaram em casa, juntaram-se todos debaixo da toca do Mestre Mocho e festejaram todos juntos, ali mesmo, festejaram com músicas contentes e lindas a sua acarinhada amiga Celeste. Os pirilampos já tinham carregado a lua e desceram para iluminar o local com as suas luzinhas pequeninas.
Dançaram, cantaram, cearam, riram, festejaram, amaram... era Natal.
Passaram-se vários anos desde que a cegonha Celeste partira, mas o Natal chegara todos esses mesmos anos. Era a mesma alegria no ar, a mesma magia desde aquele Natal que tinha ficado na memória de todos os seres da floresta.
Um certo Natal, quando a raposa Rafa seguia para junto dos outros seres para celebrar a ida da sua amiga e a vinda do Natal, tropeçou nas suas próprias patas e esmurrou um lado da sua face, que ardia. A raposa Rafa chorava e chorava e ninguém atendia ao seu choro, que era um choro normal de uma pequena raposa que se tinha ferido sem se aperceber porquê. A ferida ardia, mas de súbito, deixara de arder e sarou, num ápice, e a raposa Rafa
percebeu que algo tinha acontecido e sentiu uma pequena brisa suave e quente sobre o sítio em que se tinha ferido, sorriu, olhou para o céu, aquele céu cintilante, escuro e esbatido de névoa, e apercebeu-se de quem era, era o Natal.
Sentiu que era o Natal, e quando sentiu, os sinos tocaram, as estrelas piscaram, os flocos de neve caíam como fitas de cetim, e espalhou-se uma voz doce e maternal pelo ar, que ecoou:
- O Natal também é gratidão e este foi o meu agradecimento. Bom Natal!
A raposa Rafa levantou-se do chão e correu o mais rápido possível para junto dos seus amigos para contar a boa nova:

- Ela veio, ela visitou-me, a cegonha Celeste esteve aqui e beijou-me a cara, e assim como me disse a mim, também o diz a vocês. BOM NATAL.

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